1 maio, 2015

As grossuras do Tio Rico

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por Máucio

Tio Rico é dono de um boteco, lá pras bandas de Cruz Alta. Bolicho de esquina que vende um pouquito de tudo. Se procurar fumo em corda tem, bacia de alumínio e panela alouçada, também. É quase um armazém, mas é uma bodega muito particular. Serve refeições ao meio dia. O faturamento do negócio, na verdade, vem da venda da cachaça picada: o martelinho, a cana com bíter e o velho samba, para aqueles que querem disfarçar o visual da aguardente. Dos almoços, porém, é que se origina o lucro extra do empreendimento. Tio Rico não chega a fazer jus ao apelido, originário do nome Ricardo, mas como ele mesmo diz, não dá pra se queixar da vida.  Tio Ricardo é grosso uma barbaridade, não por falta de estudo, tem quase o primeiro grau completo, mas por uma questão de princípios. Tio Rico é grosso de propósito. No rádio ouve noticiários e música gauchesca, lê jornal de embrulho com o lápis atrás da orelha. Com isso está sempre a par dos fatos pra comentar com os fregueses. No fundo, no fundo, é um esperto marqueteiro, não fosse assim o ponto não se manteria por tanto tempo.
Há uns três anos o Tio foi obrigado a visitar a filha Anita, enfermeira numa cidade praiana catarinense, perto de Garopaba. Pegou a Belina 88 e junto com a família se bandeou rumo ao sul do estado vizinho. A viagem foi tranquila, chegaram na tarde de sexta e deu tempo pra sol, areia e chimarrão no fim do dia. Ficou olhando o marzão que, por ele, é visto como um grande açude. Dormiram cedo, por conta da viagem e da expectativa da festa de aniversário, marcada pra noite do sábado.
O aniversário transcorreu de forma muito tranquila, havia a presença da família e algumas colegas de serviço da Anita. Enfermeiras com amigos e namorados, umas quinze pessoas ao todo. Na hora do jantar, Tio Rico ficou muito impressionado com a bóia oferecida pela filha, coisa nunca vista. Tinha Peixe na Telha, anéis de lula, siri na casca, risoto de mariscos e o atrativo maior do menu, Camarão na Moranga. Tio Rico olhava tudo aquilo e enrolava o bigode. Ficou mais tranquilo, todavia, quando viu a moranga. Finalmente algo familiar, pediu pra esposa lhe servir um pedaço. Provou e quase que gostou, não fosse o camarão. Isso não faz parte do seu bornal, mas misturou tudo com arroz e mandou bala. Cada comensal que se aproximava da iguaria principal pra se servir novamente, Tio Rico levantava os olhos e reparava a alegria do vivente diante da comida exótica que Anita aprontara.
De volta à cidade natal, o Rico passou dias relatando com detalhes, cada episódio da viagem. Sorridente, falava do açudão, da cachaça com limão, sem esquecer-se, claro, das novidades apresentadas pela filha no jantar, principalmente o prato central. Passados uns dias, inspirado, decidiu incrementar o cardápio do bolicho, só que fazendo algumas adaptações. Depois de muito pensar, foi a prática. Na primeira semana resolveu servir Charque na Abóbora. A empreitada foi um sucesso, fortalecida pela intensiva propaganda realizada boca a boca. Na segunda semana, pensou daqui, pensou dali e ofereceu Mondongo na Melância.
Um sucesso ainda maior! A freguesia aumentava e comentava com euforia as inovações do Tio. Na semana seguinte outro tiro certeiro, criou o Rim no Mogango. Nem é preciso falar que o número de refeições servidas, nessas alturas, já havia mais que triplicado. Esse Tio Rico é, mesmo, bom de negócio e mui inventivo!

A coisa
As tralhas do tio Bepin