1 maio, 2015

As tralhas do tio Bepin

Compartilhe!

por Máucio

Tio Bepin sempre foi um sujeito muito teimoso e quanto mais o tempo passava mais ficava. Ao longo dos anos, como quase todos nós, incorporou hábitos, manias, excentricidades. Neuroses, diriam alguns. Um dos seus costumes mais criticados pelos filhos – três homens e três mulheres – é o de guardar coisas.
Nunca colocou nada fora, quem entrasse no galpão, lá no fundo do pátio, poderia perceber bem essa prática. Apesar de grande o espaço era entupido de tralhas. Quinquilharias, cacaiedos, segundo a prole. Quando, por exemplo, tinha que mandar trocar alguma peça da sua fubica – um Austin – guardava a antiga, não se entendia por quê. Por isso a fama de pão-duro.
Se um eletrodoméstico pifava e não havia conserto também o levava para lá, pois tinha certeza de que uma hora dessas poderia precisar de alguma parte. Chaleira furada, ferro de passar roupa, garfos tortos, pratos lascados, parafusos e pregos enferrujados, nada, nada ia para o lixo.
Quem guarda tem, dizia uma plaquinha pendurada na parede principal do recinto.
Tia Amélia, vez por outra, estimulada e pressionada pelas filhas, tentava promover uma faxina galponeira, mas não havia jeito. Bepin vinha sempre com a sentença: tu cuida da casa, eu do garpão!
Uma vez a relação quase foi à bancarrota quando o tio começou a fincar uns palanques para fazer um puxado para aumentar a área – uma meia água. Acabaram se acertando, mas não sem que tivesse de comprar uma máquina de costura nova para a patroa. Acabou lucrando, a usada foi acompanhar as outras duas que já havia no estoque.
Bepin está com mais de 80 anos e o coitado não consegue fazer mais nada de pesado. A lida na horta abandonou há tempo, até porque as sequelas do tempo da lavoura de soja foram se manifestar mais tarde. Tem uma das pernas afetadas por uma queda do trator.
Televisão não é muito sua distração, prefere acompanhar o noticiário pelo rádio. Josiepe, nome de batismo, passava os dias envoltos por suas bugigangas, sem saber muito por quê. Até que um dia uma de suas netas que mora em Minas Gerais veio passar as férias na casa dos avós.
Manoela ficou encantada com o galpão, passou a temporada olhando as coisas e conversando com o vovô. Quatro meses depois, incentivado pela netinha, o tio colocou um portão que dá para a rua do lado e abriu um brique: Antiquário do Bepin. Na rua da frente fixou uma placa sinalizando, com logotipo e tudo. Hoje, alegre e sorridente, passa os dias recebendo e conversando com a freguesia, cada vez mais numerosa e interessada.
Tio Bepin expõe e comercializa o tempo gravado nos objetos colhidos ao longo da vida. Conversa, explica, sorri, conta histórias e vai enchendo os bolsos. Não entende muito bem, entretanto, porque as pessoas compram, entusiasmadamente, aquelas tralhas. O certo é que hoje, faceiro, achou serventia para o que guardou.

As grossuras do Tio Rico
Confraria do Chuchu