29 abril, 2015

Presunto ou Mortadela?

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por Máucio

Os hábitos alimentares são históricos, como qualquer coisa que envolve o ser humano. O homem iniciou comendo caça. Depois plantou, confinou e num terceiro estágio, passou a industrializar comestíveis. Entre uma década e outra, também varia muito a produção e o tipo de alimento utilizado, que são, inclusive, indicadores de classes sociais. Li esses tempos que os suínos, por exemplo, eram consumidos só pela nobreza. Mais tarde houve um refinamento maior, as partes nobres, como lombos e pernis eram separados para os patrões e a plebe ficava com o rabo, as patas, as orelhas e assim por diante.
Graças a isso os escravos inventaram a feijoada. Por ironia, nos dias de hoje uma feijoada autêntica custa caro e é servida nos restaurantes dos mais abastados. Aos pobres restou o cotidiano feijão simples com arroz, que por sinal também é delicioso
e nutritivo.
As décadas de 1960 e 1970 foram caracterizadas por modificações e novos processos
industriais na produção de alimentos. Um dos fatos marcantes desta modernização foi a gradativa substituição da manteiga pela margarina. O Rio Grande do Sul, por motivos estratégicos e pra descalabro de muitos agricultores que ficaram devendo muito pros bancos, passou a ser um grande produtor de soja. Ora, a margarina é um subproduto dessa leguminosa. Havia uma grande produção e era necessário fazer o povo consumir margarina em larga escala.
Qual o discurso? Divulgar os malefícios da manteiga e salientar os benefícios da nova pasta rica em conservantes e aromatizantes. Tenho uma embalagem antiga de margarina que está escrito em destaque, 100% gordura hidrogenada, vejam só! Outra troca foi a do pão feito em casa pelo pão de padaria. Em relação ao leite, a luta travou-se no campo oficial. Proibiu-se o leiteiro de distribuir de porta em porta. Quando flagrado descumprindo a lei, tinha seu produto derramado na rua, para que todos vissem. A acusação era a falta de higiene.
A qualidade alimentar do leite natural e integral não entrava em questão. É bom lembrar que gerações e gerações foram criadas com leite de vaca trazido direto do produtor.
A questão maior dos alimentos industrializados é que só prometem assepsia e supérfluos como aventura e brindes, além da facilidade de comer. Os valores nutricionais ficam em quarto plano. Com a publicidade massiva os adolescentes aderiram ao consumo e comem só com os olhos, ou pelo som que os elmachipis fazem na boca. Outro problema sério é que com a correria cotidiana todos acabam entrando nesse automatismo de consumo, compramos e comemos sem pensar.
Esses tempos percebi que comprava pão, presunto e queijo mecanicamente, com medo de chegar em casa e não ter nada pra matar a fome. No entanto vi que comprava fatias de presunto quando ainda tinha na geladeira. Fiz isso várias vezes.
Dei conta que, na verdade, nem andava comendo presunto e que muitas vezes nem abria o embrulho. Por que agia assim? Lembrei que havia tentado trocar de marca algumas vezes: mais vermelho, mais rosado, com mais ou menos gordura. Nada, nenhum tinha gosto algum. Era só uma compra simbólica e a expectativa de comer. Um dia tive um estalo, vou tentar mortadela. Porque eu achava estranho quando alguém chegava no balcão e pedia isso. Parecia coisa de pobre, mas arrisquei. Foi uma
mudança de grande ordem, mortadela tem gosto, sabor, tempero! Façam o teste!
Pesquisando descobri que as mortadelas são feitas com as partes menos importantes do porco, enquanto que os presuntos são processados com as partes finas: o lombo e o pernil. Vejam vocês, certas coisas dão voltas e ficam no mesmo lugar. O consumo do porco continua apontando as classes sociais. Meu receio é de que, quando descobrirem o verdadeiro sabor dessa iguaria e a farsa que são os insossos presuntos industrializados, os nobres irão querer toda a mortadela pra eles.

Por um lado
O tempo não para.